ANTE-SALA DO INFERNO - a preparação dos atores de Encarnação do Demônio
Por Dennison Ramalho
Uma verdade quase-secreta sobre o Cinema brasileiro é que a grande maioria dos diretores não tem como sustentar um período satisfatório de ensaios para um filme. Por consequência, muitos cineastas revelam-se excelentes enquadradores, desenhadores (porque não-desenhistas) de storyboard e diretores "técnicos" (sacam muito de câmera, ótica, movimentos, composição, etc.). É claro que toda regra têm exceção. Mas, no grosso, os diretores acabam se envolvendo com os atores muito próximo, ou mesmo só durante, o período das filmagens.
A dramaturgia cinematográfica nacional vive um momento bonito. Todo mundo sabe que o realismo nas performances dos atores é o selo de excelência do Cinema contemporâneo. Em qualquer lugar e gênero. E nesse quesito, apesar do pouco (ou nenhum) tempo / orçamento para ensaios, os resultados têm representado bem nossos atores. Um Cidade de Deus, um Tropa de Elite, um Céu de Suely me avalizam. E muito dessa excelência deve-se a uma figura que tem se acercado, cada vez mais, de nossos filmes (para alívio de muitos e pânico de outros): o preparador de elenco.
Ainda trata-se de uma função nublada, a desse profissional. O leigo pode perguntar: mas não é o diretor quem prepara os atores? Alguns sim, outros algo, outros não. Enquanto o diretor se desdobra em reuniões, atendendo a todos os departamentos do filme, o elenco acaba sendo um, entre esses vários departamentos. E os dois meses de pré-produção têm que dar conta de todos os departamentos (elenco incluído). Assim, para que os atores cheguem quentes ao set, contrata-se o preparador. Esse colega é versado na psicologia da interpretação, e tem um método de ensaio que toma atalhos para o inconsciente do ator, ajudando-o a encontrar o personagem de forma interior e desmecanizada. Depois de encontrado, o ator deixa de significar e passa a viver o papel. É como andar de bicicleta. Aprende-se de uma vez só, e às vezes é bem doloroso... Nosso preparador no Encarnação foi o Paulo Barros - um cara que muitos diretores dizem ser "bruxo", por sua grande eficiência e comunhão com o elenco. Como o Mojica está na maior parte das cenas, ele participou bastante da preparação. Nosso focos acabaram sendo a interpretação da dor, do horror, da desgraça, do susto e do tesão.
Divulgação/ André Sigwalt
Em longos ensaios, o Paulo foi moldando um elenco muito numeroso, num tempo curtíssimo. Fazia exercícios apropriados, e lançava mão de música, aquecimento, respiração e mesmo alguns choques físicos. Tudo para chegar ao núcleo desse outro, o personagem. Eu, na qualidade de diretor-assistente, participei de vários ensaios. Um que foi muito insano fazia parte no núcleo "Servos de Zé do Caixão". Lembro de ensinar o Rubens Mello e a Karina Bez Batti a segurarem e golpearem com machado como se faz nos filmes de Horror. Acabamos destruindo alguma coisa (uma manta de som, ou uma mesa...). Saímos convictos de que podíamos rachar tanto lenha quanto crânios. A preparação dos personagens que seriam submetidos à torturas tiveram um resultado brutal na tela. Ao caminhar pelo estúdio, o clima era de hospício. Os ensaios de Rui Rezende, reencarnando Bruno, o corcunda (interpretado no passado pelo falecido Nivaldo de Lima) também foram memoráveis! O Rui é o nosso Boris Karloff! Para os pimpolhos vai um lembrete: ele interpretou o Professor Astromar, na clássica telenovela Roque Santeiro - um professor que se transformava em lobisomem!
Mas e o Zé do Caixão? Como foi a preparação? O Mojica foi um pouco resistente ao processo. Não só ele como o Jece Valadão. Lisos, esses senhores... O Jece já avisou que não curtia ensaios, e que se entenderia com a gente na hora (eu é que não ia ser mané de discutir com um ator da estatura do Seu Jece). Quanto ao Mestre, não adianta: Zé do Caixão tem só um jeito de se fazer. Na verdade, dois: o Zé do Cinema e o Zé da TV (este, apenas uma sombra do Zé original, o da telona). Mesmo assim, o Mojica, de tanto eu encher, passou as cenas e os textos comigo e com o Paulo - pra descobrir os tons, os crescendos e, principalmente, os trava-línguas! Localizados, eu reescrevia os diálogos. Resultado (orgulho!): Zé do Caixão ficou com um português fluente e irrepreensível!
Fechando o post num certo partidarismo, publico aqui um elogio e um incentivo à atriz Leny Dark - a grande revelação dos estreantes de Encarnação do Demônio! Fruto direto do trabalho de preparação do Paulo. A Leny é a única e mais competente Scream Queen do Cinema brasileiro! (no jargão de fã, Scream Queen é o título que distingue as divas dos filmes de Horror). E, pode crer: em algumas cenas, os gritos dela foram de um horror muito, muito real! E duraram por muito tempo após o Mojica dar o "Corta!"
Após 40 anos preso, Zé do Caixão é libertado. De volta às ruas, o coveiro está decidido a cumprir a
meta que o levou à prisão: encontrar a mulher que possa gerar seu filho. Terceira parte da trilogia
iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei sua Alma”.
Acompanhe neste blog informações sobre o filme e curiosidades sobre a produção.